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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Vento vindo de lá....


Desde que começamos este blog, eu me lembro e me esqueço, seguidamente, de publicar aqui um poeminha muito simpático, que fala de vento, de semivento, de porta, de verdade. Fala de verdade, muita verdade. Fala aquilo que a gente já sabe, que está bem cansado de saber, mas que repete, repete, repete, pela simples incapacidade humana (ou quase humana) de fechar algumas portas.

Sem pretensão de ser terapia, nem de dar conselho para a vida de ninguém. É só um poema bonito que vive ventando aqui (mais do que gostaria, confesso) e que hoje bateu no ventilador. Então aí vai:

Lembrete – Flora Figueiredo

Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.


E não é que fazendo a pesquisa do poema acima (o Google nos tornou preguiçosos para abrir os livros e digitar, não é mesmo?), mas não é que fazendo essa pesquisa, eu achei um poema ainda mais bonitinho, e que tem ainda mais relação com este blog? Olha ele aqui:

Expectativa – Flora Figueiredo

O Vento anda ficando mentiroso:
prometeu trazer você,
não trouxe;
de dizer o por quê, não disse;
esperou que eu me distraísse,
passou com pressa, rumo ao horizonte.
Já não tem importância
que cometa outra vez
um ato de inconstância.
Aprendi a esperar.

Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora,
também serão capazes
de fazer voltar.


Acho que a poetisa Flora Figueiredo andou balançando neste mesmo vento que nos fez criar esta página. Ventos são mesmo muito misteriosos, falam com a gente. Às vezes falam a verdade, às vezes mentem. Prefiro a verdade, então vou dar aos ventos uma segunda chance. Vou escancarar as portas. Volte.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Hoje foi quando eu vi o ventilador de teto


Venta tão forte, que o rio lava muita coisa com o tanto de água que o vento espirra na pedra, acho até que hoje seca as coisas que eu pendurei lá no varal. Faz tanto vento que mesmo aquela que não me visita faz tanto tempo vai chegar mais cedo por aqui. Aliás, faz tanto tempo que não vejo fazer tanto vento. Penso em sair na rua, andar no descampado espaço vasto sem casa pra nenhum lado, que é pra ver se o vento me faz andar sem usar o chão. Quando venta assim, o céu anda depressa, nem por isso a hora passa, o mobiliário de nuvens é que muda sem parar. De azul algo fica branco e isso me dá vontade de escrever. É que o vento na janela entreaberta, a cortina escapando pra fora, pede para eu vestir uma blusa. Com a cara no vento, o peito na malha e as mãos meio geladas, ouço melhor o que não me evapora. Venta um desejo de infinidades, um sentimento de teto com catavento, uns olhos querendo detalhes daquilo que o vento levantou e agora deu pra ver. E tem que ver rapidinho porque rapidamente tudo baixa outra vez, na rapidez do vento veloz. A memória não. Com o vento que venta lá nas artérias, essas coisas viram histórias e correm do teto pro chão da placidez. O vento fica. Depois vai embora e nunca sai daqui. Fazendo todo esse vento quero mais é fechar os olhos, subir dois degraus meio altos, levantar do chão o que me ocorrer e correr, correr, correr sem ver a partir de que vão o denso vira asa. Venta pra valer nesse dia de pássaros pendurados no teto, até me esqueço que esse era enfim o ventilador. A primeira vez que vi que ventou assim acho que foi quando eu nasci.